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Corra! | Crítica

 
Corra! (Get Out)
Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Catherine Keener, Bradley Whitford, Caleb Landry Jones, Marcus Henderson, Betty Gabriel
Direção: Jordan Peele
Estreia: 15 de junho de 2017

"Se o preto de alma branca pra você é o exemplo da dignidade, não nos ajuda, só nos faz sofrer, nem resgata nossa identidade". Esse trecho de Jorge Aragão é muito pertinente a temática apresentada em Corra!. O longa é o primeiro da carreira de Jordan Peele, que tem suas raízes na comédia, mas aqui apresenta um filme com uma complexidade digna do tempo que vivemos.
 
É o mais novo trabalho de um cinema afro-americano extremamente diversificado nos últimos anos: Ryan Coogler como diretor de Creed, a adaptação de Denzel Washington de Fences e Barry Jenkins na direção do premiado Moonlight. Corra! não só agrega a todo esse contexto, como também apresenta suas particularidades de modo único e consciente.

Chris (Daniel Kaluuya) é um fotógrafo de sucesso que passará alguns dias na casa dos pais de sua namorada Rose Armitage (Allison Williams) e lá fará algumas descobertas surpreendentes. Embora tenha elementos de alguns clássicos do gênero de suspense/horror como a "O Bebê de Rosemary" (1968), "Os Invasores de Corpos" (1978) e até mesmo "Eles Vivem" (1988), o longa é original na sua execução, com a carga de referências e críticas políticas inseridas na trama de maneira ora explícita, ora nas entrelinhas.
 
O mérito de Jordan Peele se dá ao fato de encaixar perfeitamente as críticas sociais e a trama de um filme de suspense. As  figuras (curiosamente comuns) do cidadão branco, rico e de esquerda como o pai de Rose, Dean Armitage (Bradley Whitford) e também da mãe, Missy Armitage (Catharine Keener), são um comentário extremamente ácido direcionado às pessoas que insistem em dizer que não são racistas apenas porque gostam de um atleta ou um cantor negro, ou porque votaram em um presidente negro. As vezes, os melhores intencionados são as piores pessoas.

Das atuações excelentes e sempre ponderadas, a mais afetada que ainda não chega a ser um overacting é a de Caleb Landry Jones (Jeremy Armitage), que merece destaque. Contudo, a melhor atuação do filme com certeza é a de Daniel Kaluuya, que faz uma incrível interpretação de um jovem confuso, atormentado pela dúvida do que vai descobrir a seguir e principalmente aterrorizado com os traumas passados que virão a tona no desenrolar da trama. A amarração do roteiro é concisa e sem enrolação, e prende o espectador do começo ao fim. Pequenas participações do amigo de Chris, Rod Williams (Lil Rel Howary) trazem o alívio cômico, embora em alguns momentos onde o roteiro constrói uma grande tensão, essas piadas destoam do tom do filme e parecem meio perdidas.
 
Peele entrega um filme surpreendentemente original na narrativa de horror proposta e nas críticas sociais que miram o problema do racismo não em eleitores de Donald Trump ou ultraconservadores, mas em uma esquerda liberal preconceituosa. Corra! é o que pode se chamar de um trabalho de gênio, num cuidado que se mostra desde a escalação dos atores até os enquadramentos do filme que prefere os enfoques em rostos. Os olhos são essenciais para o longa, mostram a dúvida, o pânico e acima de tudo se tornam a única janela de escape de algumas situações.
 
Não é difícil afirmar que este filme, sendo lançado nesse momento da história em que vivemos, será um grande clássico do gênero. Um ótimo trabalho de estreante do diretor (que também escreveu), que evoca alguns clássicos sem perder a originalidade. Ao mesmo tempo entrega um suspense com forte apelo político sem caricaturar, e é extremamente corajoso em apontar o problema da hipocrisia em pessoas que geralmente são consideradas as bem-intencionadas.
 
Provocativo, desafiador, aterrorizante e chocante, Corra! já é um clássico instantâneo que evoca uma ansiedade construída num conflito racial de maneira brilhante.

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