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Silêncio | Crítica

Silêncio (Silence)
Elenco: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Tadanobu Asano, Issei Ogata, Shin'ya Tsukamoto, Yôsuke Kubozuka
Direção: Martin Scorsese
Estreia: 9 de março de 2017


Na sua busca pessoal por mostrar diversas nuances religiosas em suas obras há muito tempo, Martin Scorsese finalmente entrega um trabalho de décadas baseado no romance de 1966 escrito por Shusaku Endo. Depois dos exageros pecaminosos absurdos em "O Lobo de Wall Street" o diretor retorna com um filme marcado por elementos sutis no roteiro, beleza em cenas de profunda angústia e uma grande carga de teologia e desafios nas tentações pessoais.

Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garrpe (Adam Driver) são padres jesuítas portugueses enviados ao Japão para descobrirem o paradeiro do desaparecido padre Ferreira (Liam Neeson), que supostamente havia apostatado da fé católica. Lá eles se deparam com uma extrema perseguição aos cristãos pelo Inquisidor Inoue (Issei Ogata) e vão ter de enfrentar dilemas onde suas vidas e as vidas dos outros cristão japoneses estarão em jogo.

Somado às suas duas horas e quarenta minutos de duração, que fazem do filme um fardo em determinados pontos, os momentos onde o roteiro se cala são surpreendentemente altos e barulhentos. Há uma preocupação de Scorsese ao filmar as cenas de tortura, inclusive combinando os momentos mais tensos do filme ao seu estilo de edição tradicional. As locações em Taiwan e o trabalho de seu cinegrafista Rodrigo Pietro criam belíssimas imagens que combinam e reforçam os conceitos do longa. 

Carregado em drama e dúvidas religiosas, o trabalho de Garfield se destaca com ressalvas. Ao passo que é capaz de traduzir os sentimentos do padre Ferreira, é no personagem de Adam Driver que encontra-se verdadeira angústia; graças ao seu tipo físico, suas expressões faciais desencontradas e em grande parte, à sua postura mais conservadora em relação a fé que sela seu destino. A dinâmica entre os dois funciona bem, até a parte onde o personagem de Driver some do longa de maneira abrupta, para retornar mais a frente. O elenco asiático também é extremamente acertado, de maneira nenhuma forçando atuações de vilões, mas sim ressaltando uma neutralidade justificável. O embate do filme é religioso e filosófico, e não físico.

O simbolismo é demasiadamente forte aqui, e isso é algo positivo. Reafirmar os medos e inseguranças da fé católica no que se refere à representação em imagens é explorado sem medo pelo longa. É possível de se questionar o quão difícil realmente seria apenas pisar em uma imagem com uma silhueta de Cristo. Porém o filme dá o peso necessário nos personagens para entendermos a criação, a educação desses jesuítas que tem como maior apego em suas vidas a sua fé. Mas e quando essa fé pode se tornar objeto de perigo e risco para centenas de outras pessoas? 

A oração é o que conduz o filme ao seu cerne religioso. A prece dos padres e tudo que acontece em sua volta os faz refletir: será que Deus realmente nos ouve? "Ou estamos orando para o silêncio?" Logo, a jornada metafísica pela qual (principalmente) o padre Rodrigues entra culmina em diálogos poderosos e uma desilusão sobre o mundo real e a diferença entre escolher entre a fé ou a coisa mais ética a se fazer. Pragmática ao extremo, essa linha fina onde o filme corre em seus momentos chave envolve o espectador em questões ainda mais profundas quando é revelado o destino do Pe. Ferreira. 

Além de apenas pensar se aqueles cristãos japoneses haviam realmente entendido o cristianismo ou apenas seguiam seus símbolos e aparências pois sequer haviam entendido a real noção de um Deus, o longa vai aos poucos se mostrando como uma alternativa aos filmes que propõe um salto de fé do protagonista para vencer seus medos e tentações. As circunstâncias aqui forçam pessoas reais, com dúvidas reais a tomar decisões que nem sempre são as que o espectador anseia. Esse é um filme onde a subjetividade de seus momentos mais intimistas irá cativar ou desgarrar quem assiste. 

Embora arrastado, difícil de se ver e monótono em algumas partes (a falta de ritmo aqui é crucial para o filme se tornar até desinteressante), o longa pode provocar diversas reações em diversos tipos de espectadores. Não sendo universal, se as mensagens do longa não irem de encontro com quem vê, pelo menos grandes atuações e belíssima fotografia irão encher os olhos dos mais céticos. Aos que tem fé, o filme irá deixar uma pulga atrás da orelha por retratar uma história que pode não acabar da maneira que os mais otimistas gostariam.

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