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Bingo: O Rei das Manhãs | Crítica

Bingo: O Rei das Manhãs
Elenco: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Emanuelle Araújo, Ana Lúcia Torre, Pedro Bial
Direção: Daniel Rezende
Estreia: 24 de agosto de 2017

★★★★
A trajetória conturbada e polêmica do palhaço mais famoso da história da televisão brasileira, o Bozo, é retratada nesse filme que conta a história do homem por trás de Bingo. Uma sutil alteração no nome, porém mantendo a essência de um drama pesado como de fato foi a história real de Arlindo Barreto, que no filme se tornou Augusto Nunes.

Anos 80, São Paulo. Augusto é um ator de pornochanchada que almeja melhorar sua carreira e conquistar ainda mais o amor do filho. Sua sorte muda quando ele faz o teste para um novo programa infantil que vinha direto dos EUA. Ele consegue cativar os responsáveis e se torna o palhaço Bingo. Vladimir Brichta encarna o problemático Augusto em uma performance arrebatadora; conseguindo cativar não apenas quando interpreta o Bingo, mas também no drama que sofre o homem debaixo da maquiagem. Com certeza o grande ponto positivo do longa, a atuação de Vladimir sustenta e carrega o filme de modo coerente.

O roteiro de Luiz Bolognesi é marcante, desenvolve bem os personagens através de diálogos precisos e nada explicativos. Não há ninguém subutilizado aqui, todo o filme é em torno de Augusto e os demais personagens são utilizados na exata medida segundo a necessidade da narrativa: nem mais tempo de tela, nem menos. A fotografia é memorável graças à capacidade de resgatar uma São Paulo oitentista exuberante, mas ao mesmo tempo longe do brega. Neons, contrastes com garrafas de uísque e jogos de luzes com holofotes são bem utilizados e transportam o espectador para dentro da narrativa naturalmente e sem exageros. O ritmo do filme é adequado e as escolhas de filmagens de Daniel Rezende("Tropa de Elite" e "Cidade de Deus") são muito inteligentes.

É necessário destacar aqui uma das últimas performances de Domingos Montagner, falecido em um acidente em 2016. Ele é o "mentor" de Augusto durante as primeiras semanas de exibição do programa do Bingo na televisão. Ana Lúcia Torre é a mãe de Augusto tem seu momento de grande importância na história e Leandra Leal interpreta uma evangélica durona, diretora do programa do Bingo.

Os excessos no uso de drogas pelo protagonista não é o único foco do roteiro na sua queda. O fato de ser o palhaço mais conhecido do país, primeiro lugar de audiência todos os dias, mas não poder revelar a ninguém sua identidade é algo muito maior aqui. A crise do ego, da falta de reconhecimento ao olhar para a carreira de sucesso da sua mãe, são fatores que levam ao desespero do protagonista e a sua queda. É possível observar a reflexão proposta aqui na figura do filho, que cada vez mais se distancia do pai enquanto este se perde na vida que a "fama anônima" proporciona. Há uma cena extremamente pesada envolvendo o filho de Augusto e que supera qualquer expectativa de que a loucura do protagonista tenha ultrapassado todos os limites. A capacidade do filme de mostrar essa cena tão envolvente mostra como essa obra trabalha o drama não só em extravagâncias, mas também em sutilezas.

A religião tem um papel na história de Augusto, mas há uma leveza ao tratar desse assunto no filme. O desfecho da trama não é de modo nenhum um "felizes para sempre", mas sim uma mensagem verdadeira de redenção do personagem através do que este conseguiu se segurar enquanto vivia seus piores dias.

Com certeza um dos melhores filmes nacionais dos últimos anos, Bingo é um drama desprovido de tédio. Empolgante, divertido, mas ao mesmo tempo dramático e pesado. A atuação brilhante de Vladimir e a ótima direção de Daniel Rezende conduzem esse filme ao rol de grandes obras do cinema brasileiro desprovidas de qualquer pretensão de agradar um determinado público. Bingo é para todos que querem conhecer uma história de ascensão e queda de um astro da TV brasileira. E o filme cumpre esse objetivo de modo brilhante. Valorize o cinema nacional e assista nos cinemas!

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