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Lady Bird: A Hora de Voar | Crítica


Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird)
Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Thimothée Chalamet
Direção: Greta Gerwig
Estreia: 5 de abril de 2018.

★★★★


É difícil não se identificar com "Lady Bird", e, por consequência, amá-lo. O filme carrega todos os elementos de um festival de clichés e estereótipos, mas surpreende por ser extremamente sensível. Um roteiro tão cuidadoso, que chama a atenção pela naturalidade e forte expressão dos personagens, o que nos leva às atuações. Saoirse Ronan é Christine McPhearson (ou Lady Bird), uma adolescente comum, com problemas comuns: família problemática, a necessidade de atender as expectativas da mãe, paixões e a dificuldade de se encontrar nos círculos de amigos da escola. A mãe, Marion McPhearson, interpretada por Laurie Metcalf, foi criada em outros tempos. Por isso, ela constantemente briga com a filha. Conforme o longa avança, vemos que essas brigas não são motivadas por nada mais que o amor maternal que almeja o melhor para Christine, e se vê falha em seu papel devido à forte personalidade da filha. As duas atrizes entregam com excelência as performances e sustem a narrativa em sua progressividade e amadurecimento gradativo ao longo do filme.

A protagonista passa por tantos altos e baixos durante o longa, e nos remete ao grande espiral que é o fim da adolescência e o início de uma vida de responsabilidades como a faculdade e a moradia longe dos pais. No fim das contas, "Lady Bird" é primariamente sobre mudança de mentalidade. Talvez o grande twist do filme seja o momento que Lady Bird descobre que, apesar de tudo, Sacramento é um lugar que ela ama. A cidade se torna um meio da personagem crescer e aprender que o lugar onde ela passou bons momentos, com pessoas que ela ama, é um lugar que não é de nenhuma maneira um lugar horrível. O foco nessa relação da protagonista com Sacramento é uma das formas que Greta Gerwig usa para transmitir uma das nuances da ideia central do filme: o amadurecimento. Qual momento de nossas vidas que nos tornamos quem deveríamos ser? E como sei qual a melhor versão de mim mesmo?

Na direção de fotografia, Sam Levy ("Frances Ha") trabalha com sutileza. Enchem os olhos enquadramentos que refletem não apenas a urgência de todas as ações nessa complicada fase da vida, mas também o humor, a grande piada que é a adolescência (como a cena com as hóstias). Há várias piadas físicas, e o humor do filme é moderado e muito bem resolvido. Assim como essa época da vida, algumas situações são engraçadas e outras, tragicômicas. A paleta de cores é quente, assim como a Califórnia, evidencia uma leveza visual que reforça um conceito jovial do longa. O uso acentuado do amarelo em contraste com o vermelho dos cabelos de Christine reforçam a ideia de que ela é, nas palavras do seu amante, Kyle (Timothée Chalamet): "muito anarquista".

Gosto de enxergar a figura da mãe como uma representação de Greta Gerwig de tantas forças externas na sociedade que pressionam e causam desconforto nos adolescentes que precisam encarar a vida adulta: a escolha da profissão, morar longe de casa e dois pais e principalmente a luta pela sobrevivência financeira. Sob o ponto de vista da protagonista, essas forças externas não vêm acompanhadas de amor. Há inclusive o questionamento de Lady Bird em um momento do filme: será que minha própria mãe gosta de mim? Mas o que esse filme entrega ao passo que fascina o expectador é o arco de redenção da mãe, que ao final do filme se entrega ao seu lado amoroso e incondicional para Christine, mas expressa isso de sua própria maneira. 

Duas mulheres de gerações diferentes podem viver em atrito devido a suas personalidades fortes, porém o que "Lady Bird" entrega é uma história de entendimento sobre si mesmo e sobre os que mais te amam. Se entregar às fraquezas da adolescência é, impreterivelmente, meio de aprender e corrigir suas atitudes e sua mentalidade. A direção de Greta Gerwig torna ainda mais belo e íntimo o filme. Ela capturou com perfeição o espírito jovem e rebelde e seu relacionamento quase que maniqueísta com uma mãe durona e extremamente cheia de si, através de um ótimo roteiro.

"Lady Bird" é a magnífica expressão de uma diretora preocupada em retratar uma história de entendimento pessoal por meio de elementos tão familiares, que se torna impossível não se identificar de alguma forma com o filme. Absoluto e cativante, esse filme é, em suma, uma celebração à juventude.

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