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The Post - A Guerra Secreta | Crítica

The Post - A Guerra Secreta (The Post)
Elenco: Maryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford
Direção: Steven Spielberg
Estreia: 25 de janeiro de 2018 (Brasil)

★★★★

Somente Steven Spielberg ("Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros") poderia fazer um grande filme em 2017 sobre liberdade de imprensa e empoderamento feminino ao mesmo tempo que narra um fato histórico de grande importância para a democracia americana. "The Post - A Guerra Secreta" não é uma obra-prima do diretor, mas entrega uma poderosa mensagem para o tempo que vivemos através de boas atuações que abrilhantam um filme conduzido com maestria por Spielberg.

Kay Graham (Maryl Streep, "Mamma Mia!") é a dona do jornal The Washington Post e se vê numa complicada situação após Ben Bradlee (Tom Hanks, "Ponte dos Espiões") ter acesso a papéis que mostram que o governo dos EUA estavam mentindo para a população a respeito da guerra do Vietnã. Após o The New York Times ser processado pelo governo do presidente Nixon por publicar parte desses documentos, cabe a Kay decidir se o Washington Post ainda irá continuar publicando o escândalo que ainda envolvia três outros presidentes. A dualidade entre os dois personagens é o que estabelece a tensão da história: Key está preocupada com os investidores do jornal, o banco, as ações e toda a parte financeira da empresa. Já para Ben, essa é a oportunidade de fazer valer sua função como jornalista e defender a liberdade de imprensa. A capacidade do longa de prender o espectador nas diversas decisões ao longo da história é o que reforça o conceito imediatista presente no filme. Tudo na redação do jornal funciona às pressas, e a dimensão do conflito enfrentado por Ben ao longo das suas descobertas é construído de modo a deixar o espectador tenso junto aos personagens.

A evolução da personagem de Streep é fascinante. Há toda uma estrutura cinematográfica para ressaltar seu crescimento como pessoa e como líder durante o filme, incluindo tomadas de câmera e enquadramentos (o contraste entre plongées e contra-plongées, por exemplo). Fazendo valer mais uma indicação ao Oscar, Streep entrega aqui uma personificação de empoderamento feminino numa época onde os espaços de poder do jornalismo americano eram tomados pelos homens. Ben reforça a imagem do jornalista destemido e sem medo das consequências. Dessa forma, o personagem de Hanks é um exemplo de como Spielberg leva longe demais alguns conceitos para forçar no espectador qualquer sentimentalismo, quase que apelativo. Nesse caso, é através de um personagem extremamente forte e idealista.

John Williams é o responsável pela trilha sonora que carrega as cenas de tensão e eleva o espírito do espectador nos momentos onde ela sobe e os calorosos violinos acompanham os raros sorrisos da história. Todo o som de "The Post" é essencial: os barulhos da prensa funcionando, as teclas das máquinas de escrever e até mesmo o som de folhear um jornal. De certa forma, todos esses ruídos ajudam a estabelecer uma urgência, que é a preocupação de Spielberg. Em termos de fotografia, Janusz Kaminski estabelece uma atmosfera com tons pastel, com muitos brancos e beges. Tendo trabalhado com Spielberg previamente em "A Lista de Schindler" e "O Resgate do Soldado Ryan", Janusz transporta com louvor o espectador para uma redação de jornal nos anos 70: os planos de conjunto revelam as inúmeras mesas de jornalistas batendo nas teclas das máquinas de escrever, a fumaça dos cigarros e a correria tradicional. Sem contar o trabalho já citado acima a respeito da cinematografia no arco da personagem de Maryl Streep, que é consistente e significativo para a narrativa.

"The Post - A Guerra Secreta" não é um filme datado pois trata de temas muito atuais, principalmente acerca da liberdade de imprensa. Contemporâneo ao lançamento do filme, houve a polêmica a respeito do livro "Fogo e Fúria", que revela alguns "podres" do governo de Donald Trump, que tentou, em vão, impedir a venda do livro. O próprio presidente atual dos EUA se considera o inventor do termo fake news, que dominou a mídia e as redes sociais no último ano. Não há tempo mais oportuno para relembrar o público, principalmente o público americano, de que a luta entre os políticos poderosos e a liberdade de imprensa não começou com Trump. Spielberg entrega um filme de redenção da imprensa: a luta para que todo cidadão possa saber a verdade acerca do governo de seu país, ainda mais em um período de guerra. Se reduzirmos o filme apenas à personagem de Maryl Streep, já teríamos uma excelente obra a respeito de uma mulher que é frágil perante um mundo que não a reconhece por seu valor, mas se torna alguém capaz de tomar a atitude que mudaria de uma vez por todas a história do jornalismo americano. Tudo isso através de uma belíssima atuação, que apenas Streep seria capaz de entregar com tamanha naturalidade e maturidade.

Marcante em alguns diálogos, demasiadamente apelativo em um ou dois momentos, porém consistente e narrativamente convincente, "The Post - A Guerra Secreta" é um filme com elenco de peso que não decepciona e dirigido muito bem por Spielberg. A indicação a Melhor Filme no Oscar é perfeitamente encaixada com a proposta da Academia de trazer temas relevantes e atuais para a premiação. O filme é uma ótima maneira de não apenas conhecer o dia-a-dia de um jornal e as dificuldades intrínsecas a essa função, como também de refletir sobre assuntos pertinentes para a contemporaneidade.



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