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A Grande Jogada | Crítica


A Grande Jogada (Molly's Game)
Elenco: Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner, Michael Cera, Jeremy Strong, Chris O'Dowd
Direção: Aaron Sorkin
Estreia: 22 de fevereiro de 2018 (Brasil)

★★★

Aaron Sorkin estreia como diretor em "A Grande Jogada", após seus ótimos trabalhos como roteirista em filmes como "Steve Jobs" e "A Rede Social". Sua visão, agora por detrás das câmeras, não revelam nada de novo nem surpreendente. Contudo, sua precisão autoral na escrita do roteiro e a excelente performance de Jessica Chestain fazem desse filme um bom material biográfico, mas que não alcança maior profundidade em qualquer outro aspecto.

Chestain interpreta a ex patinadora no gelo Molly Bloom, que por anos foi a organizadora de partidas de pôquer de altíssimo risco em Hollywood e Nova Iorque. Porém, após uma investigação do FBI, ela recorre ao advogado Charlie Jeffey (Idris Elba) que relutantemente aceita defendê-la.

O roteiro de Sorkin e seus diálogos poderosos elevam a narrativa em diversos momentos, e com uma precisão cirúrgica. Chestain está absoluta ao entregar as falas, com uma atuação marcante. Ela consegue transmitir uma mulher extremamente inteligente, capaz de sempre estar alguns passos à frente dos outros, com um ar de superioridade e até mesmo soberba em alguns momentos. Essa soberba no tom de voz faz com que os voice-overs do filme sirvam de fio condutor da história e ao mesmo tempo demonstram uma característica de Molly. Um bom uso do recurso, que até o início do filme pode parecer desnecessário mas que Sorkin aproveita para mostrar mais sobre Molly, se aproveitando da falta de sua aparência e conseguindo extrair uma boa performance de Chestain. Elba também está muito bem no filme, mas é uma cena próxima do final que consagra seu personagem.

Conceitualmente bem planejada, a edição do filme imprime um ritmo acelerado em alguns momentos, através de cortes rápidos. Infelizmente o filme é inconstante no ritmo e no final é demasiadamente demorado, lento. Alguns 30 minutos a mais chegam a parecer 50. O diretor não consegue manipular bem o tempo nos minutos finais do longa, revelando uma inexperiência de Sorkin ao tentar trabalhar em excesso alguns conceitos que seu próprio roteiro trabalhou bem durante as duas horas do filme.

A fotografia é sem graça, pálida e pouco acrescenta ao filme. Com exceção das roupas glamourosas de Molly, não há nada visualmente expressivo. Há alguns recursos visuais para explicar ao público algumas jogadas do pôquer que, para os leigos, podem fracassar em seu objetivo e se tornar pedantes. Sorkin tentou (há mérito nisso) tornar a experiência do jogo imersiva ao espectador, mas não contava talvez que em dois minutos não se aprende uma jogada chave de um jogo como o pôquer. Além disso, essas cenas não aumentam em nenhum grau o suspense ou mesmo a expectativa do final da jogada. 

Os três tempos narrados no roteiro, a infância de Molly (Kevin Costner fez um ótimo trabalho como seu pai rigoroso), a época em que a personagem organizava as partidas de pôquer e, por fim, o presente momento onde ela discute com seu advogado todos esses acontecimentos passados. Há um ótimo trabalho em como essas três tramas convergem para a mensagem principal do longa: A personalidade fascinante de Molly. E como Sorkin cumpre bem esse objetivo. A contemplativa personagem revela inúmeras facetas durante o filme, mostrando uma complexa construção de personagem através dessa estrutura de três tempos proposta no roteiro do Sorkin.

"A Grande Jogada" é um filme que transita por erros na montagem, na direção e na fotografia. Contudo, entrega através de um poderoso roteiro uma personagem cativante e complexa em uma excelente atuação de Jessica Chestain. Um trabalho confuso de direção não tira o brilho (literalmente) que a história de Molly Bloom tem a oferecer. Não é um all-in, mas merece ser assistido.

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