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O Sacrifício do Cervo Sagrado | Crítica


O Sacrifício do Cervo Sagrado ("The Killing of a Sacred Deer")
Elenco: Colin Farrell, Nicole Kidman, Barry Keoghan, Alicia Silverstone, Raffey Cassidy, Sunny Suljic
Direção: Yorgos Lanthimos
Estreia: 8 de fevereiro de 2018 (Brasil)

★★★

O diretor grego Yorgos Lonthimos, conhecido pelo filme "O Lagosta", certamente entende como causar certas reações no espectador. A repulsa, o medo e a tensão crescente estão no bojo de "O Sacrifício do Cervo Sagrado" como marcas registradas de Yorgos e estão presentes durante todo o filme. Por mais autêntica que essa obra seja, ao mesmo tempo que extrai muitas reações do público, ironicamente pouco extrai dos personagens.

Nesse filme os personagens recitam suas falas, quase que como robôs, sem nenhum tipo de expressividade, o que torna o papel de Colin Farrell ("O Estranho que Nós Amamos") um personagem interessante. A ironia proposital que o diretor entrega consiste em constantemente causar certas sensações no público e aflige crescentemente ao ver que os próprios personagens da trama não correspondem da mesma forma. A primeira imagem do filme é um coração num peito aberto numa mesa de cirurgia. Desde o primeiro momento do filme, há a sensação de estranheza com o que é representado na tela.

O personagem de Barry Koeghan é muito impressionante e o ator entrega com muita confiança. Arrisco dizer que Barry ainda fará mais papeis como esse ao longo da sua carreira. Um olhar estranhamente apático, gestos corporais que remetem a inquietude do ser humano (de certa forma, desprendendo uma camada do filme) e outras qualidades fazem deste personagem o mais interessante do filme, não apenas porque chama a atenção pela estranheza, mas também consome um tempo de tela que prende o espectador para saber mais sobre ele.

Yorgos também escreveu o roteiro do longa, onde há alguns problemas. A falta de explicação sobre o que de fato está acontecendo com os personagens ressalta uma dúvida: seria o filme propositalmente raso em explicações para ressaltar a qualidade do diretor em determinados aspectos subjetivos? O diretor entrega uma história que é aceita por quem assiste simplesmente porque se vê amarrado às emotividades propostas que o levam para longe da realidade. Falando em realidade, esse filme é uma amostra do mundo segundo Yorgos e é explicitamente bizarro. O caos, a falta de normalidade e a estranheza são o que conduzem bem o filme em vários momentos, mas pode tirar o foco da história e dos recursos cinematográficos.

Há no filme um abuso de movimentos de câmera como tracking shots, além de primeiríssimos planos que realçam justamente a total falta de expressividade dos personagens. Na cena decisiva do filme, a câmera na mão deixa ainda mais agonizante a decisão do protagonista. Portanto, há um bom uso da linguagem cinematográfica nesse sentido, embora a fotografia possa passar quase que desapercebida durante o filme, podendo ser necessário assistir mais vezes o filme para apreender determinadas nuances.

Quem vai assistir "O Sacrifício do Cervo Sagrado" encontrará um filme difícil, tenso e agonizante em muitos momentos, onde o suspense criado pelo mistério da trama sustentam um bom filme. De qualquer maneira, é uma obra subjetiva e carrega uma necessidade de se afirmar, podendo trazer diversas formas de encarar o que é tratado por Yorgos. Onde o estilo autoral do diretor é superior à própria narrativa é onde o filme se encontra vazio, sem expressividade. E como uma piada de mal gosto, é exatamente como o próprio longa.


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