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Pantera Negra | Crítica


Pantera Negra ("Black Panther")
Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong'o, Danai Gurira, Daniel Kaluuya, Sterling K. Brown 
Direção: Ryan Coogler
Estreia: 15 de fevereiro de 2018

★★★★
Quando o filme solo do Pantera Negra foi anunciado em 2014, não poderíamos imaginar que 2018 seria um momento tão crucial em termos de discussões sobre desigualdade, racismo e preconceito. Ryan Coogler ("Creed: Nascido Para Lutar") entregou um filme relevante, que dialoga a ficção com assuntos políticos e sociológicos de nossos tempos, através de elementos narrativos que fazem de "Pantera Negra" um dos filmes mais importantes da Marvel Studios.

No longa, T'Challa (Chadwick Boseman, de "Get On Up: A História de James Brown") tem que lidar com a morte do seu pai após os acontecimentos de "Capitão América: Guerra Civil" e se tornar o rei que a nação de Wakanda precisa. Uma ameaça surge para desafiar o trono e coloca as tribos do país em conflito, enquanto T'Challa defende seu posto de Pantera Negra.

A direção de Coogler traz algumas lembranças de "Creed", principalmente na filmagem das cenas de ação. Há uma preocupação evidente em mostrar Wakanda em todo o seu esplendor: o design de produção é um dos pontos fortes entre os aspectos técnicos. Toda a estrutura arquitetônica e artística do país foi cuidadosamente pensada, assim como as soluções visuais para a inspiração do Vibrânio em toda a tecnologia. Essas características visuais ajudam a gradativamente revelar Wakanda como uma nação poderosa e culturalmente rica. Por exemplo, a tribo protetora da fronteira tem habilidades especiais que ajudam nessa tarefa, e a tribo isolada apresenta um visual mais rústico, pouco refinado. Ou seja, há uma ótima solução para as diversidades culturais que uma nação como Wakanda possui.

Em termos de história, ela se mostra clichê e extremamente previsível. Porém há de se destacar Michael B. Jordan ("Quarteto Fantástico") como um dos melhores vilões do Universo Cinematográfico da Marvel. Toda a construção de seu personagem é comedida e gradativamente vai revelando uma ameaça real ao rei e à Wakanda. Danai Gurira (da série "The Walking Dead") e Lupita Nyong'o ("12 Anos de Escravidão") merecem um destaque especial em seus papeis de líder das Dora Milaje e de espiã, respectivamente. Aliás, todo o elenco trabalha muito bem e não deixa a desejar, se tornando um dos pontos positivos do filme (mas isso já imaginávamos quando vimos pela primeira vez os nomes que estão nesse filme, certo?).

Porém é na abordagem política e sociológica desse filme que encontramos a joia de "Pantera Negra". Além do conflito quase que dramatúrgico (rei legítimo versus não-merecedor da coroa) estabelecido primariamente, temos uma disputa ideológica em Wakanda. Uns pensam em seguir as tradições e manter Wakanda uma nação fechada, isolada de todas as outras, pois isso deixaria os cidadãos em segurança. Por outro lado, outros preferem um uma ideia mais progressista, ao refletir que Wakanda nunca esteve em favor de outras nações africanas que sofreram durante a história e sofrem até hoje nas mãos do homem branco. Logo, deveria haver algum tipo de assistência vindo da nação mias rica e poderosa do mundo. Perceba que essas ideias não são fictícias. Vivemos divididos e polarizados em políticas conservadoras e progressistas, que ditam as discussões recentes da política no Brasil, por exemplo.

Além disso, o longa suscita questões extremamente relevantes como o "oprimido com mente de opressor", por exemplo. Até mesmo a questão de refugiados é tratada e debatida no filme. A divisão e os conflitos construídos nessas ideias percorrem todo o filme até seu desfecho, onde uma palavra prevalece: união. Eis algo difícil de ser realizado em 2018: um filme que traz questões pertinentes para serem refletidas e discutidas e firmar uma posição que converge para o fim da polarização através de uma união pelo bem comum. Seria fácil tomar lados nessa guerra. Coogler poderia optar forçar uma visão "de esquerda", ou mesmo uma visão "de direita" (sendo grosseiramente simplista a fim de exemplificar a polarização da sociedade). Ao invés disso, ele eleva "Pantera Negra" como obra cinematográfica necessária para nossos dias ao fazer dela algo que alcança muito mais que simplesmente dar voz a uma opinião, mas sim propor e discutir divergências e conflitos, que é essencial para uma democracia.

O filme, contudo, sofre com explicações excessivas, história previsível, além de se tornar arrastado demais em alguns momentos. Os efeitos especiais e chroma keys tiram a profundidade e o sentimento de muitas cenas. Porém suas falhas não apagam o brilho de um longa que parece ter sido feito para nossos tempos, sob medida. Uma história de amadurecimento de um líder, que através dos conflitos se estabelece como rei e defende seus ideais.

Um dos filmes mais diferentes (num bom sentido) do Universo Marvel, e também um dos mais importantes. "Pantera Negra" é a excelência negra contada através de lentes políticas e culturais dos nossos tempos, ao mesmo tempo que se coloca como um filme de super-herói e diverte como tal. Mais um grande acerto da Marvel Studios, que entregou o filme na mão das pessoas certas, e com certeza o ótimo resultado será lembrado por muitos anos.

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